9.11.10

O elevado

E o elevado continuava elevado para poucos. O chão inda era frio nos trinta graus, eles se deitavam, papelão com papelão compondo uma trama, uma rede, uma cama. Eles se ajeitavam e me olhavam com olhos de papel.
Eles me buscavam enquanto eu cruzava a rua, preto chão, chão preto, preto. Negro era o cordão, meu cordão, proteína, sangue, pulsação.
Cachaça não era festa, era sinônimo de pão. Busca alguém que preste, que valha mais que os desse chão. Cachaça não era festa, era mão.
E se eu desse, e se eu desse a minha mão? E se eu quisesse, e se eu quisesse tê-los como irmãos?
Cabeças recostadas sob o falso protesto em tinta, corpos embriagados sobre as cores do artista. E se ele desse, e se ele desse a sua mão?
Um lambe-lambe era apenas decoração. Cachaça era apenas pão. E se eu desse? E se eu desse a minha mão?
São só ossos, são só dentes, peles brilhantes em um papelão. E se eu desse, e se eu desse meu colchão?
E eles gritam, eles choram, eles levantam as mãos. Seus corpos bêbados mal respondem, seus peitos negros mal palpitam, seus ventres ocos mal digerem.
E que vergonha; teus sonhos vão na contramão.
Queria era dar-te um beijo, sentir a língua humana, o bicho que rejeitamos, o podre que retiramos. Queria tuas costelas, tão costelas! Ossos!
Que fizessem fila! Que conhecessem o humano. São vocês, são vocês!
Bichos envergonhados, bêbados, esfarrapados, humanos são vocês!
Somos apenas ratos, no calor do casulo ingrato, impostos pagos, silêncio barato.
Nós que merecemos o elevado, o lambe-lambe bizarro.
Queria era dar-te um beijo. Língua. Sugar um estômago, alimentar-me de um ar alcólico, cheirar-te a pele.
Costelas! Ah, costelas tão diferentes das minhas!
Deitar-me em teus peitos, acender um cigarro molhado e doado, um gole a mais, um gole a menos.
E vem o gozo: Tão humano. Tão humano! Tão humano!!! Aaaahh!!!

Nenhum comentário:

Postar um comentário

"Se apenas houvesse uma única verdade, não poderiam pintar-se cem telas sobre o mesmo tema".

BlogBlogs.Com.Br